/ Apr 04, 2025

Ex-OMC: Taxa não é ruim com Brasil, mas saldo não é bom – 03/04/2025 – Mercado

O ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) Roberto Azevêdo afirma que as tarifas anunciadas pelo presidente americano Donald Trump nesta quarta-feira (2) não são tão prejudiciais para o Brasil se considerados os possíveis cenários que chegaram a ser previstos.

Em entrevista à Folha, ele avalia que a tarifa-piso de 10% ainda vai tirar competitividade das exportações brasileiras no mercado americano em relação aos produtos “made in USA”. Mas que o percentual pode proporcionar vantagens por ter ficado abaixo do aplicado a outros países relevantes.

“Dos cenários que poderiam aparecer com essas medidas, esse não foi um mau cenário para o Brasil. Não quer dizer que tenha sido um bom cenário, mas não foi um mau cenário”, afirma.

Ele também cita um potencial ganho de mercado internacional para os produtos brasileiros, caso os produtos americanos fiquem mais restritos com retaliações de outros países. Isso se daria sobretudo na área agrícola e nas commodities de forma geral.

Apesar disso, ele diz que a medida tem um potencial turbulento na corrente de comércio global, na inflação americana e nos juros –com risco de desaceleração econômica e até de recessão. Por isso, no fim das contas, ele não vê benefícios para o Brasil.

“Se você levar em consideração o potencial efeito inflacionário dessas medidas todas, com uma desaceleração econômica talvez universalizada, é muito difícil você pensar em um efeito líquido positivo”, diz.

Qual a avaliação inicial sobre a medida?

Ele [Donald Trump] tinha várias alternativas de promover essas tarifas recíprocas. Podia fazer produto a produto, por exemplo. Ou escolher setores para determinados países. Mas não. Ele fez algo horizontal. Tudo que é exportado para os Estados Unidos a partir da agora terá uma sobretaxa de 10% no mínimo. É um país que importa por volta de US$ 3 trilhões em produtos. Então seria um custo adicional de US$ 300 bilhões que vai ser de alguma forma repassado ao consumidor dos Estados Unidos.

Quais efeitos a medida deve ter para o mundo de uma forma geral?

É de se imaginar que haverá na economia americana algum efeito inflacionário, se não recessivo, com impacto nas taxas de inflação. Consequentemente, você pode ter um ambiente de juros mais altos a depender de como esses parâmetros vão interagir. Isso sem falar de desvio de comércio. Produtos que vão entrar em outros mercados de maneira mais competitiva ou predatória porque não estão conseguindo entrar no mercado americano, gerando um excesso de oferta em alguns setores. Então haverá muita turbulência, pela abrangência com que as tarifas foram anunciadas.

Esse efeito inflacionário nos EUA também desperta um temor com a elevação de juros?

Você pode ter um ambiente de juros mais altos. Mas se o efeito for de recessão, aí o Fed [Federal Reserve, o banco central americano] pode querer baixar as taxas de juros para estimular a economia. Vai depender de como essas coisas se manifestam na economia real.

Que efeitos a medida gera para o Brasil?

O Brasil não foge a esse quadro, a meu ver. Agora, do ponto de vista estritamente comercial, dos cenários que poderiam aparecer com essas medidas, esse não foi um mau cenário para o Brasil. Não quer dizer que tenha sido um bom cenário, mas não foi um mau cenário. Porque o produto brasileiro vai ser sobretaxado em 10% no mercado americano. Os produtores [estrangeiros] que vendem ao mercado americano vão perder competitividade se comparados com o produto americano “made in USA”. Mas ele ganha competitividade se comparado com aqueles que vão ser mais taxados. E não são poucos.



Não quer dizer que tenha sido um bom cenário, mas não foi um mau cenário. Porque o produto brasileiro vai ser sobretaxado em 10% no mercado americano. Os produtores [estrangeiros] que vendem ao mercado americano vão perder competitividade se comparados com o produto americano “made in USA”. Mas ele ganha competitividade se comparado com aqueles que vão ser mais taxados. E não são poucos

E qual a consequência para os produtos brasileiros fora do mercado americano?

Vai depender muito de como os outros países vão se comportar. Por exemplo, se eles vão adotar medidas de retaliação. E se os americanos vão aplicar uma contra-retaliação ou coisa do tipo. Pois quando a medida de retaliação [da União Europeia, por exemplo] for contra produtos americanos que competem com o brasileiro no mercado internacional, o produto brasileiro ganha fatia de mercado. O comportamento de preço é difícil você prever, mas você pode aumentar a sua fatia de mercado com a perda de mercado que poderá acontecer para as commodities americanas.

Nesse sentido, o efeito líquido pode ser positivo para o Brasil?

Se você levar em consideração o potencial efeito inflacionário dessas medidas todas, com uma desaceleração econômica talvez universalizada, é muito difícil você pensar em um efeito líquido positivo. Agora, dentro desse cenário ruim, eu acho que pode sim haver alguns ganhos para produtos brasileiros, sobretudo na área de produtos agrícolas e commodities de uma maneira geral, que estejam em competição com o produto americano.

Considerando os números anunciados, faz sentido o Brasil retaliar?

Não posso opinar porque acho que isso é uma decisão do governo brasileiro. Agora, claramente o melhor caminho é o diálogo. Procurar conversar, procurar entender, talvez até antes de adotar qualquer tipo de medida. Mas a minha percepção é que o presidente Trump não falou de negociações. Ele fala que as tarifas vão ficar em vigor enquanto o déficit comercial for uma ameaça.

As medidas de Trump podem aproximar outros países e impulsionar novos tratados comerciais?

É possível, é um foro de negociação, é um foro de conversação na área comercial. Acho que os membros da OMC vão querer encontrar soluções para diminuir o impacto disso tudo sobre eles próprios.

O anúncio de Trump pode afundar ainda mais a OMC?

Quando você vive momentos assim, dessa natureza, as regras ficam ainda mais importantes. Os outros países precisam de algum tipo de âncora, de referência, até para evitar que o mundo desague na lei da selva. A OMC é um foro para negociações e acho que muita coisa vai ser discutida lá dentro de forma a buscar um caminho. Ela passa a ser mais relevante do que nunca, porque é o único ponto de referência para evitar o abismo do comércio internacional.

Raio-X

Roberto Azevêdo, 67 anos

Primeiro e único brasileiro a ocupar o cargo de diretor-geral da OMC. Exerceu a função por sete anos, até 2020 —quando se aposentou da carreira diplomática. Depois disso, entrou no setor privado. Foi executivo e presidente do conselho da PepsiCo. Hoje é sócio da YvY Capital.

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