Envelhecer é como trocar a mochila de rodinhas por uma de alças: ela parece menor, mas o peso que carrega é outro. À primeira vista, dá a impressão de que ficou mais leve — até que você precisa subir uma escada.
Depois do artigo de ontem, vieram as perguntas: envelhecer encarece a vida ou a torna mais barata? A verdade é que essa conta não tem um resultado exato — e muda conforme a realidade de cada um.
Há quem diga que os gastos sobem. Outros juram que diminuem. Mas, no fundo, talvez a verdade esteja em outro lugar: as despesas não necessariamente aumentam — elas mudam de natureza.
No início da vida adulta, boa parte do orçamento vai para os filhos, educação, moradia maior, carro novo, planos de telefonia que atendam a uma casa cheia. Depois que os filhos saem, muitas dessas contas desaparecem.
Mas outras, silenciosamente, entram em cena. É a fase dos remédios recorrentes, das consultas periódicas, de pequenos reparos no corpo — ou na casa. Às vezes, entra também o desejo de aproveitar melhor o tempo: fazer aquela viagem adiada, sair mais com amigos, cuidar de si.
O que realmente se transforma com a idade não é só o tamanho da despesa, mas o risco que ela carrega. Um imprevisto de saúde ou a perda da autonomia podem exigir um gasto repentino e contínuo, que antes parecia distante. E, diferente da juventude, quando temos energia para resolver as coisas por conta própria, na velhice muitas vezes é preciso pagar para que resolvam por nós.
É aí que a análise emocional dá lugar à percepção distorcida: o risco de poucos que enfrentam grandes despesas acaba contaminando a visão geral, fazendo parecer que envelhecer é sinônimo de gastar mais — mesmo quando não é o caso da maioria. E ainda há outro motivo comum, que cito a seguir.
A sensação de que os custos disparam com a idade também pode vir de outro lugar: da troca de mãos da responsabilidade. Quando os pais não se prepararam financeiramente, cabe aos filhos arcar com as despesas — e, nesse momento, tudo parece mais caro. A conta sempre existiu, mas só agora passou a pesar no seu bolso.
Envelhecer, em si, não necessariamente encarece a vida. Muitas vezes a deixa mais barata pela simplicidade e pela redução da vaidade. Mas a ausência de planejamento transforma necessidades simples em emergências financeiras. E aquilo que poderia ser uma fase tranquila se torna um campo de incertezas.
Talvez a verdadeira pergunta não seja sobre o custo em si, mas sobre quem vai ter que arcar com ele: você mesmo, com planejamento, ou alguém que você ama, por falta dele. Afinal, se ninguém carrega um custo, ele nunca foi pesado.
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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